A mulher moderna é uma escrava da liberdade?

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    “Sou mulher, tenho desejos, planos, vontades tais como os homens. Você, mulher moderna, é aquela pervertida. Você que na balada só lhe faltam conferir os dentes, porque todo o corpo é o primeiro dos pré-requisitos”.

    A liberdade abstrata das mulheres

    Tamiris Vescovi Casotto

    Quando a Lei Áurea foi sancionada pela princesa Isabel, fato esse, inclusive, bastante conveniente para o presente texto, residia ali um momento festivo e muito aguardado por todos os escravos. A conquista da tão esperada liberdade soava como novo tempo e com ele, novas possibilidades. Esse surgia como uma luz tão intensa que por ora lhes cegou. Mas a retina logo se adequa às novas condições de luminosidade e só então é possível começar a ver algumas silhuetas. A imagem passa a ter formas e a fazer mais sentido para outras interpretações. O que parecia de fato não era.
    Os escravos se viram livres em um contexto nada favorável. Caíram em desgraça. Marginalizados, não tinham como se sustentar. Por tempos carregaram nas costas fardos e mais fardos de café, cana, mas não conseguiram suportar o fardo que a liberdade os trouxera. Triste. Ter tanto nas mãos e não poder usufruir com dignidade daquilo tudo que lhes aguardava. Triste.
    Eu como mulher da sociedade que queimou os sutiãs, que saiu da cozinha e foi para os escritórios, que se sustenta e também sustenta aos filhos, encontro-me no mesmo ambiente hibrido dos escravos recém-libertos. O contexto não ajuda. Não temos a liberdade de fato. Temos a liberdade presente num discurso preciso nas bocas e vacilante nos pensamentos.
    Sou mulher, tenho desejos, planos, vontades tais como os homens. Mas vejo que ainda não suportam nossa alforria. Julgadas no silêncio dos olhares. Você, mulher moderna, é aquela pervertida. Você, por tantas vezes, é aquela que lava os pratos do almoço, e que homem algum fará a gentileza de lhe lavar os seus também. Você que na balada só lhe faltam conferir os dentes, porque todo o corpo é o primeiro dos pré-requisitos. Você que se equilibra nos saltos altos e com os pés apertados deixa de dançar como gostaria e volta para casa com os calos. Seus vestidos justos e curtos por vezes lhe impediram de andar confortavelmente, de sentar como bem quisesse. Nossa retina ainda se adequa. Tenho o alvará em minhas mãos e muita penumbra pela frente.
    À todas as mulheres, o meu respeito.

    Tamiris Vescovi Casotto tem 27 anos e é Engenheira sanitária atualmente, atriz informalmente e pensadora constantemente.